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"[...] Nos primeiros anos, as
verbas eram curtas, mas sobrava o entusiasmo e diante de nosso fanatismo
profissional os desconfortos, riscos e dificuldades eram quase sempre
ignorados. Passamos grande parte de um período de dois anos
(1937-1938) nas matas de Piratuba, município de Abaetetuba,
no Pará, tendo como residência uma palhoça,
junto à qual ficavam o "laboratório" e o
"refeitório", sob tendas de lona; trabalhávamos
do alvorecer até tarde da noite, à luz de lampiões
de querosene, vendo doentes, puncionando esplenomegalias, examinando
cães, gatos e animais silvestres, capturando flebótomos
e mosquitos, dormindo em redes às vezes armadas entre árvores,
ou no chão de barracas, paióis ou trapiches; viajávamos
léguas a pé ou em barcos com motor de popa ou canoas,
carregando às costas redes, mosquiteiros e parte do rancho
e da parafernália necessária ao trabalho; passamos
por violentas tempestades nas matas ou nos rios, naufragamos duas
vezes e Evandro sofreu um sério acidente quando, viajando
sozinho num bote a motor, a explosão deste provocou-lhe queimaduras
que o mantiveram por muitos dias no hospital.
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[...] Guardamos muitas reminiscências: as viagens quase quinzenais
de Belém a Abaetetuba em antigos aviões militares
biplanos, monomotores do Correio Aéreo Nacional, com lugares
para o piloto e um só passageiro, com asas de lona, às
vezes remendadas; urna viagem em pequeno avião do governo
do Acre, cujo piloto ainda estava com a perna engessada da sua última
queda e outra na qual atravessamos por uma hora a floresta entre
o Acre e o Amazonas em pequeno monomotor para o qual, no último
momento, fora transferida a bateria do único automóvel,
- um táxi - então existente em Rio Branco; as viagens
a cavalo ou montados em jumentos, bois ou búfalos; do jacaré
que quase pôs a pique a nossa canoa depois de um tiro de espingarda
de Evandro, no Rio Urubuputaua; ou da onça diante da qual
passamos em fila indiana na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
("A gente passa devagar, faz de conta que não está
vendo; ela está de barriga cheia, não vai atacar..."
dizia o mateiro que nos servia de guia). Nas margens do Lago Tamucuru,
no Pará, os anofelinos eram tão abundantes que forçavam
os habitantes a erigir suas casas palafíticas no meio do
lago e nos obrigavam a fazer as refeições e os trabalhos
de laboratório, mesmo de dia, debaixo de mosquiteiros. Nos
charcos e igarapés de Rondônia nossa caça às
larvas de anofelinos era perturbada pela proximidade inamistosa
dos índios Pacaas-Novas. E a autópsia que tivemos
de fazer enfrentando caboclos armados de paus, foices e facões
pra impedi-la, eu tremendo de medo, munido de um revólver...
sem balas. [...] Tínhamos de colher sangue dos moradores
de áreas onde havia corrido o boato de que um de nós
era a “besta-fera”, o demônio; certa vez, numa
casa do município de Icó, no Ceará, só
me permitiram o exame dos moradores depois que mostrei não
ser o Demo fazendo, por exigência deles, o sinal da cruz diante
de um crucifixo; ficaram tranqüilos porque não explodi
exalando um cheiro de enxofre; doutra feita, no interior do município
de Iguatu, também no Ceará, obrigaram-me a tirar as
botas para mostrar que não tinha pés de cabra... São
dessa época vários bichos-de-pé e bernes e
o alastrim que levei para toda a minha família; e a malária
que minha mulher e eu contraímos, ela na Ilha de Marajó,
de um Anopheles darlingi que capturara ao picá-la
e que ela própria verificou estar infectado com esporozoitos;
e eu, uma terçã maligna transmitida no Ceará
pelo Anopheles gambiae, que me deixou três dias inconsciente,
quando estávamos isolados no Posto de Pesquisas, por uma
enchente no Rio Jaguaribe e que me valeu uma multa de três
dias por não ter feito o uso adequado de Atebrina profilática.
[...] Quero ressaltar quão importante foi, para o futuro
do Instituto, o ter sido criado e no princípio orientado
por Evandro Chagas. Evandro era uma pessoa invulgar. Inteligência
privilegiada e notável capacidade de exposição
e argumentação em vários idiomas, tinha também
grande resistência física e um evidente dom de liderança.
Comunicou ao grupo de jovens de sua equipe a mística do pioneirismo
e o desejo de participar do trabalho detetivesco de elucidar a transmissão
das doenças de nossas populações rurais. Abria-se
para nós um novo mundo, o das pesquisas de campo. Um mundo
duro mas fascinante por seu sabor de aventura e que nos empolgou
de tal maneira que se tornou o ambiente da maioria das investigações
de vários de nós pelo resto da vida. Essa mística
se transmitiu às posteriores gerações de pesquisadores
e muito influiu para que o Instituto tenha podido trazer uma contribuição
tão importante para o conhecimento da nosologia da Amazônia."
Leonidas M. Deane
Pesquisador do IEC (1936 a 1949)
Texto publicado originalmente em:
DEANE, Leonidas M. Histórico
do Instituto Evandro Chagas: período de 1936-1949. In: FUNDAÇÃO
SERVIÇOS DE SAÚDE PÚBLICA (Belém).
Instituto Evandro Chagas: 50 anos de contribuição
às ciências biológicas e à medicina tropical.
Belém, 1986. p. 53-67.
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